domingo, 12 de junho de 2011

... Desculpas para sair da sala ...


1- Professora, preciso passar mais tempo com meu liquidificador

2-Professora, vou levar meu amigo imaginário no banheiro

3-Preciso levar meu poodle pra jogar sinuca!

4-O sinal de fogo!!! A escola está pegando fogo (CORRA)

5-Professor… Preciso lavar minhas meias

6-Sabe o que é… Estou com uma dor de cabelo… Preciso ir embora

7-Preciso ir cortar as unhas dos pés
 
8-Vou visitar meu papagaio no hospital

9-Preciso assistir a sessão da tarde

10-Eu fui seqüestrado… já é hora de eu voltar para meu cativeiro

... Poesia Matematica ...


Às folhas tantas do livro matemático, um quociente apaixonou-se um dia, doidamente, por uma incógnita. Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base uma figura ímpar; olhos rombóides, boca trapezóide, corpo retangular, seios esferóides. Fez de sua uma vida paralela à dela até que se encontraram no infinito. 

"Quem és tu?", indagou ele, em ânsia radical. "Sou a soma do quadrado dos catetos. Mas pode me chamar de hipotenusa." E de falarem descobriram que eram (o que em aritmética corresponde a almas irmãs) primos entre si. E assim se amaram ao quadrado da velocidade da luz numa sexta potenciação, traçando ao sabor do momento e da paixão retas, curvas, círculos e linhas sinoidais nos jardins da quarta dimensão. 

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana e os exegetas do universo finito. Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E enfim resolveram se casar, constituir um lar, mais que um lar, um perpendicular. Convidaram para padrinhos o poliedro e a bissetriz. E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro sonhando com uma felicidade integral e diferencial. E se casaram e tiveram uma secante e três cones muito engraçadinhos. E foram felizes até aquele dia em que tudo vira afinal monotonia. 

Foi então que surgiu O máximo divisor comum freqüentador de círculos concêntricos, viciosos. Ofereceu-lhe, a ela, uma grandeza absoluta e reduziu-a a um denominador comum. Ele, quociente, percebeu que com ela não formava mais um todo, uma unidade. Era o triângulo, tanto chamado amoroso. Desse problema ela era uma fração, a mais ordinária. Mas foi então que Einstein descobriu a relatividade e tudo que era espúrio passou a ser moralidade como aliás em qualquer sociedade.

Millor Fernandes
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domingo, 5 de junho de 2011

... Tarde demais para saber ...

Outro dia um homem me escreveu uma carta comovente. Dizia ter vivido 12 anos ao lado de uma mulher. Excentuando-se aquele período de paixão que caracteriza todo início de relacionamento, o resto do tempo que passaram juntos foi pouco estimulante.

Almoçavam juntos, viajavam de vez em quando, transavam regularmente, riam das mesmas piadas, mas a verdade é que ele não prestava muita atenção nela. Havia se acostumado com sua presença. Até que um belo dia ela pediu as contas. Arrumou a mala e se foi. Cansou de não ser percebida. E só aí ele caiu em si. 

Disse-me este senhor que bastou dez minutos longe dela para descobrir o quanto a amava. Durante os 12 anos de convívio, ele estava mais preocupado com as seduções externas: trabalho, futebol, e sim, outras mulheres, ainda que passageiras. Por um erro de avaliação, ele não considerava que aquele almoçar junto, viajar junto, transar e rir das mesmas piadas pudesse ser também chamado de amor. 

O amor que ele via anunciado nas revistas e o amor que os seus amigos diziam estar vivenciando pareciam muito mais verdadeiros do que aquele amor que ele tinha em casa, desglamurizado, com cenas que pareciam em preto e branco. "Sou uma besta", ele concluiu. Somos, meu amigo, todos umas bestas. 

A gente pode estar vivendo uma relação tranqüila, satisfatória e afetiva, mas sempre tem a maldita janela nos chamando lá para fora, iludindo a gente de que há algo mais tentador, mais desafiante do que aquilo que temos nas mãos. Como muitos ganhadores de loteria que continuam a jogar, não nos basta o quão rico já estamos: queremos mais. E de olho no futuro, desprezamos o que temos de melhor, o presente. 

Eu já recebi cartas contendo problemas bem mais escabrosos, mas não minimizei a tristeza deste homem, pois sei como é duro descobrir tarde demais que se ama alguém. Além da dor da saudade, tem a dor de ter sido estúpido. Damos valor às pessoas apenas quando elas não estão mais por perto, os velórios chorosos estão aí para provar. Até inimigo sai falando bem do morto. Só que o morto já não pode escutar. Este homem não teve sua mulher de volta. Decidida, ela tomou seu rumo. "O que faço agora?" ele me pergunta. 

Sofra, meu caro. O sofrimento é a melhor penitência para não reincidir no erro. E da próxima vez, saia um pouco da janela. 

MARTHA MEDEIROS

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