segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

... Gerações Futuras ...

Acabo de voltar do carnaval na praia, onde fiz uma triste constatação: tá dominado, tá tudo dominado!!! Só dá funk! O "neo forró" tenta uma reação, mas suas letras não são cafajestes e não trazem a "alegria compulsória" que o brasileiro tanto gosta. 

Aí não dá, né, pô?! Como é que o cara quer fazer sucesso sem tratar mulher como lixo?! Esses forrozeiros, vou te contar... A indústria do CD pirata vai tratar de enfraquecer esse negócio, mas o jabá e a televisão devem insistir na onda por um bom tempo. 

Xuxa, Luciano Huck, Raul Gil, Gugu, enfim, toda essa gente boa vai se virar pra ganhar em cima. A Bandeirantes até já vai lançar um programa semanal com duas horas de duração dedicado ao funk. Isso, claro, até o "Tigrão", a mente por trás do "movimento", ser domesticado, o que, em termos mercadológicos, significa botar um terninho e gravar uma babinha pra novela das oito da Globo.

 O "Tigrão", aliás, deu uma elucidativa entrevista pra revista VIP de março. Eu digo elucidativa, pois ele dissipa a névoa de ignorância (por parte do público) que encobria alguns aspectos do "movimento". 

Vejamos: em determinado trecho da entrevista, "Tigrão" diz: "...As pessoas gostam desse erotismo. Mas, se você analisar, as letras nem são tão pesadas. Elas têm duplo sentido, até porque o público infantil ouve funk". Muitas coisas interessantes nessas sentenças! Então vamos por partes: "...se você analisar, as letras nem são tão pesadas". Eu analisei e ele está certo. Quem, em sã consciência, poderia achar pesada a letra do funk "Máquina de Sexo", que diz: "Máquina de sexo, eu transo igual a um animal / A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal / Chatuba come cu e depois come xereca / Ranca cabaço, é o bonde dos careca"? Nota-se a leveza de termos como "sexo anal", "cu", "xereca" (!) e "cabaço". "Elas têm duplo sentido...". Procurei demais e não achei o duplo sentido no funk "Barraco III": "Me chama de cachorra, que eu faço au-au / Me chama de gatinha, que eu faço miau / Goza na cara, goza na boca / Goza onde quiser". Ah, agora entendi! "Goza na cara" é porque o cara ficava tirando sarro da menina pelas costas. Aí ela diz "Goza na cara!". Que coisa... "...até porque o público infantil ouve funk". Eis uma verdade e a preocupação do "Tigrao" se justifica. 

Foi pensando nas crianças que o garoto Jonathan, de 7 anos (ele mal tem coordenação motora para reproduzir a coreografia) foi incentivado a gravar o funk "Jonathan II", de edificante letra: "De segunda a sexta, esporro na escola / Sábado e domingo, eu solto pipa e jogo bola / Mas eu já estou crescendo com muita emoção / E eu já vou pegar um filé com popozão". 7 anos!!! 7 anos!!! Pô, foi mal...

 A culpa é minha, gente grande, feia e besta, que não entendo. Então, vamos lá, repetir o discurso de dez em cada dez apresentadores de programas femininos e de auditório: todo mundo junto, um, dois, três e já: "A malícia está na cabeça do adulto, a criança só quer se divertir. Onde já se viu, se preocupar com uma coisa dessas. Das crianças que passam fome na rua ninguém fala nada...". Aplausos entusiasmados e urros de apoio, por parte do auditório. É bom que se diga que as crianças que passam fome nas ruas são um sério problema social, cuja resolução deve ser uma das prioridades máximas de qualquer governo (detalhe sem importância: os funks da moda não passam nem perto dessa questão. Mas, beleza, vamos lá...). 

Só que é um problema do governo, a gente não tem nada com isso, não é mesmo? Ao invés disso, vamos dar risada e incentivar o moleque de 7 anos (7 anos!!!) a "pegar um filé com popozão". Afinal, nunca é cedo demais pra mostrar pro papai que se é um garanhão, que não deixa passar nenhuma cachorra. Isso é que é uma infância saudável! 

E pensar que eu perdi tanto tempo assistindo "Bambalalão", "Sítio do Pica-Pau Amarelo" e ouvindo aqueles discos da "Turma do Balão Mágico". Ao invés disso podia estar por aí, transando umas cachorras... 

Enquanto a gente dá risada, a molecada vai crescendo com a certeza de que mulher não passa de uma bunda e um par de peitos siliconados, que gosta de ser chamada de cachorra e que acha que só um tapinha não dói. Se "só um tapinha não dói", o primeiro deveria ser dado no popozão dos tigrinhos e cachorrinhas que curtem essas coisas.

 Depois a gente não entende o motivo do aumento dos índices de violência contra a mulher e porque ela é tão desrespeitada na sociedade. Será que não é óbvio? Você, cadela... quero dizer, mulher que está lendo isso, levante-se e lute! Não seja uma cachorra! Um tapinha dói, sim! Exija respeito antes que nós, homens, acreditemos que é isso mesmo que vocês querem.

 Deponham as Xuxas, Carlas Perez, Feiticeiras, Tiazinhas, Enfermeiras, Internéticas,Vampiras, Fernandas Abreu e Vanessinhas Pikchu de seus reinados de miséria intelectual! Conto com vocês!!! 
E lembrem-se sempre da cada vez mais 

Arnaldo Jabour

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

.. Quem não arrisca, não petisca ...

Você deve conhecer um poeta brilhante, porém inédito. Ou um cara que canta superbem, mas que nunca teve uma chance. Ou ainda uma garota que pinta que nem Tarsila do Amaral, mas jamais recebeu um convite para expôr. 

Talvez seja você mesmo esse gênio incompreendido, esse talento prestes a estourar, esperando apenas uma oportunidade. Fora da mídia, existem milhares de artistas desconhecidos, batalhando por um lugar nesse disputado mercado cultural. A maioria desiste da carreira antes de começar, e coloca a culpa nos outros, decretando que a humanidade é insensível demais para reconhecer sua genialidade. E há os que não têm pressa em virar estrelas e cavocam o próprio espaço. Declamam seus versos em bares, tocam seu violão em estações de metrô, correm atrás do seu público. 

É verdade que esse público geralmente passa reto sem olhar, mas o elemento sorte pode estar ali por perto, rondando. Um caçador de talentos, um empresário a fim de investir em cultura, um editor farejando novidades, eles podem estar bem atrás de você. Tudo o que se tem a fazer é estar no lugar certo na hora certa. Um caso em mil? Pode ser, mas as estatísticas não estão com essa bola toda, ou não haveria tanta gente apostando na megasena. 

Escuta esta: quatro adolescentes ingleses de 16 anos formaram uma banda num subúrbio próximo à cidade de Manchester. Mas não saíram da garagem. Resolveram então gravar um CD demo, colocaram o disco num envelope e escreveram: para Rainha Elizabeth, Palácio de Buckingham, Londres. Junto mandaram um bilhete apresentando-se e dizendo que não usavam drogas, o que foi bem lembrado, pois a atitude deles era de quem estava em viagem de ácido. Surpresa: duas semanas depois receberam um convite da rainha para fazer uma apresentação de 20 minutos no aniversário de 50 anos do príncipe Charles. Platéia de 800 convidados, maior do que muito teatro. Se os garotos mandaram bem, não sei, mas a imprensa estava lá, documentou. Só voltam pra garagem se forem muito ruins. Que seja um caso em mil. 

A verdade é que ninguém vai cair do céu com um contrato prontinho pra você assinar. É preciso se expôr sem medo de dar vexame.
É preciso colocar o trabalho na rua. 
É preciso saber ouvir um não e, depois de secar as lágrimas, seguir batalhando. 
Arriscar, é o nome do jogo. 
Muitos perdem, poucos ganham.
Mas quem não tenta, não tem ao menos o direito de reclamar.

 Martha Medeiros