sábado, 19 de janeiro de 2013

... Fazer 30 anos ...


Quatro pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave. Antes dos 30 as coisas são diferentes. 

Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar. Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. 

Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

 Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

 Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar. Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós. 

Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente. Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade.

 É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes. Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. 

Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer. Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó. Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. 

Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar. 

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

... Coisas que as mulheres fazem melhor do que os homens ...


Muita gente pensa que quando mostro todos os defeitos que mostro nas mulheres estou demonstrando definitivamente que as filhas de Eva são em tudo piores que os filhos de Adão e que jamais conseguirão fazer alguma coisa melhor que os indivíduos que vestem calças compridas. Está claro que isso não é verdade. 

Como é verdade clara que na maioria das vezes as mulheres estão realmente aquém, muito aquém mesmo das coisas conseguidas pelo homem, de modo que realizam apenas a metade do que estes conseguem realizar quando se metem a medir forças com eles. 

Mas em determinadas coisas muito particulares — as exceções da regra — elas se mostram de uma eficiência que os homens nem conseguem imitar. 

Demonstrando isso dou abaixo uma lista das coisas admiráveis que a mulher consegue fazer: 
1) Economizar em coisas úteis e gastar em coisas inúteis. 
2) Colocar na cabeça o mais ridículo dos chapéus e achar que está elegantíssima. 
3) Mandar descer milhares de peças de fazenda das prateleiras de uma loja e no fim não comprar nem um metro.
 4) Colocar um maiô de dez centímetros e achar que está bem vestida. 
5) Falar durante duas horas e não dizer absolutamente nada. 
6) Enganar o cônjuge sem que este jamais suspeite de que está sendo enganado. 
7) Usar um sapato apertadíssimo apenas porque o acha elegante; só desmaiar de dor quando chega em casa. 
8) Tomar banho demoradamente e depois sujar a cara com baton, rouge, pan-cake, e outras drogas.
 9) Fingir irritação quando alguém desconhecido lhe diz um elogio quando na verdade está contentíssima. 
10) Ter medo de uma mulher sozinha e não ter medo de dez homens juntos. 
11) Cruzar as pernas mostrando-as bem, e depois ficar irritada porque alguém as olha. 
12) Elogiar tremendamente uma amiga e logo às suas costas dizer "tudo que sabe delas" — e acrescentar alguma coisa ainda por sua própria conta.
 13) Aborrecer um gerente de loja até que ele lhe deixe mais barato cinqüenta centavos um metro de fazenda que custa trezentos cruzeiros. 
14) Não fazer nada durante toda a existência e não se sentir inútil. 
15) Participar dos feitos e glórias do marido ou coisa que o valha sem participar dos riscos do fracasso. 
16) Mudar a cor do cabelo preto para vermelho e exclamar: "Detesto chamar a atenção dos outros”. 
17) Conversar na intimidade coisas que fariam corar um frade e protestar em altos brados quando insinuamos ao de leve qualquer coisa mais livre. 18) Chorar a qualquer momento em que for preciso. 
19) Arrancar as sobrancelhas todas e depois fazer outra a lápis. 
20) Perseguir um homem dando a impressão de que foge.

MILLÔR FERNANDES

... Test drive para o amor ..



Existem muitas maneiras de duas pessoas apaixonadas se conhecerem melhor: irem juntas ao cinema, sairem para um chope, passearem de bicicleta, fazerem festa com os amigos, motel. É a programação clichê da maioria dos namorados. 
Mas será que isso basta para conhecer alguém? 
Um homem e uma mulher podem tomar quatrocentos litros de chope juntos e continuarem sabendo muito pouco um do outro. Uma coisa é saber o que ele pensa, e isso pode ser feito numa mesa de bar. 

Outra é saber como ele é, e isso requer mais intimidade, e não é de sexo que se está falando. É de convivência 24 horas. 

Como descobrir, antes de casar ou morar junto, se ele ronca, se ela demora no banho, se ele usa fio dental, se ela acorda de mau humor, se ele sabe lidar com o inesperado, se ela é mesmo independente?

 Pegando a estrada. Viajar juntos é o grande teste para um casal. Passar alguns dias acampando, ou num hotel, numa casa alugada, não importa onde, desde que seja um território neutro onde se possa repartir os bons e maus momentos, descobrir as manias de cada um, os hábitos que foram herdados dos pais, a verdadeira face oculta, que dificilmente se revela numa festa de sábado. 

Ela sempre aparecia cheirosa nos encontros. Perfumaria. Viajando juntos, você descobre que ela é adepta do banho de gato, uns respingos e deu. Dorme com uma baba no cabelo, que é pra não ressecar. Usa a mesma camiseta cinco dias seguidos e sua escova de dentes completou três aninhos em agosto. Ele sempre falou que honestidade era sua maior virtude. Nota-se.

 Na estrada, tentou subornar dois guardas. Chegando na casa que alugaram, ele deu um jeito de emperrar uma janela para pedir um abatimento no preço. Ao fazerem as primeiras compras no mercadinho da cidade, você o flagrou escondendo uma barra de chocolate no casaco e passando pelo caixa sem pagar. Um exemplo de dignidade. É claro que, na maioria das vezes, uma viagem confirma que a pessoa que elegemos é mesmo maravilhosa, e novas qualidades são descobertas. Mas é conveniente não reservar as surpresas para a lua-de-mel. Pequenas viagens de fins-de-semana, ao longo do relacionamento, podem ser muito reveladoras. 

Você já sabe que ele gosta de filmes de ação e que ela prefere comer peixe, mas os dois só saberão dos detalhes da personalidade de cada um se criarem uma pequena rotina doméstica, fora da vida social. Isso é brincar de casinha? Que seja. Ainda é o melhor teste para saber se o amor resistirá a uma vida de verdade. 




Martha Medeiros